sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Uma semana in Rio de Janeiro.

Minhas primeiras idas ao Rio de Janeiro eu ainda era office-boy e ia a trabalho. Eram viagens vapt-vupt (bate-volta), sem tempo sequer para molhar os pés nalguma praia. Depois de grande fui outras vezes, mas esta de agora foi para fazer o circuito turista. E até que foi bacana. Então deixo aqui alguns registros fotográficos dessa viagem.


O belo Teatro Municipal do Rio, que dizem parecer com L'opera de Paris, é 2 anos mais velho que nosso aqui de Sampa (o do Rio é de 1909 e o de SP, 1911). Também em estilo eclético, ou seja: uma mistureba (renacentista, barroco, art nouveau entre outros)

(fotos: Zequinha imagens)

Havia uma concentração lulo-dilmista na frente do teatro.


Visitar a Biblioteca Nacional era o número um na lista de prioridade - só que acabou sendo frustrante, porque o visitante tem pouco acesso às salas importantes, as de restauros e obras raras eram impossíveis (no fundo a gente até compreende essas limitações).


Além da Biblioteca Nacional, outro lugar que estava na lista de prioridades pra conhecer era a Confeitaria Colombo. Um dos melhores retratos da belle époque, um local frequentado por artistas e pela elite carioca desde 1894.


Incrível. Os preços não são de assustar. Para os paulistanos dá pra pedir cochinha ou croquete baratinho.




Outro lugar que muito me emocionou foi o Real Gabinete Português de Leitura. Outra viagem no tempo, só que agora no mundo dos livros. Um belíssimo prédio de estilo "neo-manuelino" de 1887, escondindo na rua Camões, no centro histórico do Rio de Janeiro. Um ambiente pra amante de livro (e fãs do castelo-escola do filme Harry Porter) não achar defeito.


O estilo interno, como na lindíssima clarabóia, também segue o padrão neo-manuelino.

Detalhes das colunas que sustentam os mezaninos.

Os estimulantes e pedagógicos orelhões eróticos do Rio de Janeiro.



Passeio pelos centenários Arcos da Lapa.

No meio da praça dos Arcos havia uma manifestação de médicos residentes.


O lendário Circo Voador ao lado dos Arcos da Lapa.

Fundição Progresso, uma antiga fábrica de fogões e cofres, que fora salva da demolição se transformando em espaço cultural.

Os Arcos vistos do alto de Santa Teresa.
"Menina eu te conheço não sei de onde/ não sei se foi no bonde de Santa Teresa..."

Há recantos em Santa Teresa que me lembram Olinda.
Uma pose "meio" gay no alto de Santa Teresa (com vista pro Pão de Açúcar)
A famosa ecadaria do Selaron em Santa Teresa.

Eu e o chileno Selaron, o criador

Uma pausa para uma merecida breja.
As centenárias palmeiras imperiais do Jardim Botânico.

Abaixo: o ser (Jaborandi) e o nada (eu).
 Um chafariz entre as enormes palmeiras.
Chegando para papear com Otto Lara Resende.
 Dentro do palacete do Parque Lage que serviu de cenário para o filme "Terra em Transe" e para o velório de seu diretor, Glauber Rocha.
Nesta piscina foi rodada a cena final do filme Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade, em 1969.
O Cristo visto do Parque Lage.
Me emocionei ao ver a torre do castelo do Parque Lage tantas vezes usada em filmes dos Trapalhões.
O sol pairando sobre Ipanema beach.
Havia uma bandeira rubro-verde como a da Lusinha nas areias de Ipanema.
Sobre as pedras do Arpoador.
Cabelo ao vento, e pose suspeita.
 Morro Dois Irmãos.
Drummond e eu reparando nalguma bela dona de Copacabana. Transformaram Caymmi num mostro de assustar criançinhas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Flip 2010.

Aqui segue, finalmente, alguns registros fotográficos que fiz em agosto na oitava FLIP na bela cidade de Paraty. Demorou porque as conexões aqui de casa estavam umas lástimas (tanto a banda fixa quanto a 3G) - eu não conseguia upiludiar as imagens pro blog, o que me fez perder a paciência com essas operadoras que não cumprem as velocidades prometidas. Infelizmente também perdi a empolgação inicial no resumo que eu desejava fazer do evento. Perdoem-me.



Abaixo, o poeta Chacal.
Os poetas Antônio Cícero, Chacal e Ferreira Gullar (mais o prof. Eucanaã Ferraz) lendo na íntegra o livro "Alguma Poesia" de Drummond que completa 70 agora, em 2010.
Minha cara denuncia a puta ressaca que eu me encontrava logo de manhã. Urrg!

Essa sensacional banda de jazz circulava pela cidade - era patrocinada pela cerveja Bohemia (eu que sou apreciador da Bohemia escura reclamei a falta do produto na cidade).
Um ecologista apareceu distribuindo gratuitamente mudas de diversos tipos de planta.

Imagens do povo que circulou pela oitava edição Flip.


Confesso que me aproveitei do WiFi da estande da Falha de S. Paulo, onde também bebi muito café na faixa. Eita.
No meio da praça havia um circo de livros.
Um grande sucesso nesta edição da FLIP, sem dúvida, foi o capitão Jack Sparrow de bronze; constamente rodeado pelos fãns mirins.

Alguns paratyenses que nem se deram conta da festança literária (certo eles).



Esta casa foi o cenário do bar do seu Nacib (Marcelo Martroianni) no filme Gabriela.
O melhor local para bebericar e para ser visto e encontrado, obviamente.

domingo, 15 de agosto de 2010

Bienal de Livros???

Depois da FLIP em Paraty fui, nesta sexta, ver a Bienal do Livro daqui de Sampa. Ufa! Caminhei mais de 4 horas entre livros. Ops, eu quis dizer entre “vendedores” de assinaturas de revistas. Um fato chato que se repete a cada bienal é a proliferação dos “espertos” vendedores de assinaturas de todo tipo de revista. Espertos porque inovam cada vez mais suas abordagens – chegando a irritar meu pobre saquinho. A tática dessa vez é interpelar a vítima perguntando se ela já recebeu as “cortesias” de sua revista. Daí arrastam o mané para a estande para convencer o coitado. Dica: se você vai a Bienal se prepare para essa pentelhagem.

Outra coisa: cadê os vantajosos “descontos” das editoras? Penso eu que o legal desses eventos, para quem é leitor, é o desconto nos livros. Se o beneficio não existe, então, pra que uma bienal de livros? Os descontos que vi nesta sexta não refrescam o bolso de quem curte leitura, aliás, os pequenos e ridículos abatimentos rolavam apenas em edições desprezíveis de pouca circulação (melhor dizendo, só em “lixeira”). Outra coisa que proliferou neste ano foi a participação de editoras dedicadas à publicação de todo tipo de crença; até os seguidores da Cultura Racional, aquela seita na qual o grande Tim Maia se enchafurdou nos anos 70, montou estande.

Por fim, o que salva esse tipo de evento é o encontro do leitor com seus autores diletos, mas quando descubro que padre Marcelo e Regina Duarte estão entre os convidados daquele dia, sinto uma sensação de arrependimento. Eita, meu saco.
Um tema recorrente nos debates literários (Flip e Bienal) é o futuro do livro, que alguns dizem ameaçado pelos E-books (kindle, Ipads e etecétera...). Chamam tecnólogos, professores, escritores, especialistas de tudo quanto é coisa pra falar do assunto, sendo que a formação do leitor, isso sim, um tema crucial, acaba negligenciado.
Enfim, não cabe a mim desestimular aqueles que queiram conhecer a Bienal de Livros de 2010. Na verdade eu desejo boa sorte a todos. Que todos possam prestigiar o evento, sem aborrecimentos. Que voltem com as sacolas cheias e não de saco cheio.

sábado, 7 de agosto de 2010

Sábado-Feira em Paraty

Logo de manhã, aqui em Paraty, tem o britânico Terry Eagliton que veio rebater o que o cientista Richard Dawkins, que esteve na Flip2009, escreveu sobre religião; Richard é um darwinista elaboradíssimo, então vai ser porrada, e eu quero ver – essa eu não perdo.

Hoje é dia do excêntrico cartonista Robert Crumb (a segunda estrela da Flip 2010, depois de Isabel Allende). Conheci o trabalho e a importância de Crumb através de leituras sobre contra-cultura e cultura pop dos anos 60 e 70. Aqui em Paraty ele fez sucesso entre crianças e adolescentes (e muitos marmanjos aussi) – vou vê-lo, mas sem paixões, já que sou um ET que viu pouco quadrinho na vida.

Quero ver, e com entusiasmo, a homenagem a Drummont por Antônio Cícero, Chacal, Ferreira Gular. Eles farão leitura de poemas do primeiro livro de Drummont, “Alguma Poesia (que completa 80 anos em 2010)”. Mais à noite tem o documentário “José & Pilar” de Miguel Gonçalves Mendes sobre José Saramago. Esse longa, que é uma homenagem da Flip a Saramago, ainda não entrou em cartaz no Brasil.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Paraty: segundo dia.

Acordei com uma leve ressaca (foi a Coqueirinho paratiense a culpada). Chovia enquanto tomava café da manhã, mas o sol finalmente deu as caras (tá um pouco tímido ainda). Daqui a pouco vou tomar uma aguinha de coco pra rebater e recuperar a dignidade. Cerva e mais Coqueirinho só for mais à noite.

Tenho mesa de debate às 15h30 com o Reinaldo Moraes. Sou leitor assumido do cara. Já disse isso: Reinaldo, Marcelo Rubens Paiva e Caio Fernando Abreu são responsáveis por eu gostar de narrativas soltas, sem lirísmos, ou outras firulas. Revolucionaram a cabeça e a escrita do Zequinha desde os anos 80.

Como assinante e leitor, eu vivo me queixando da Falha de S. Paulo, agora vejam minha contradição: estou tomando cafezito, lendo jornal e usando wifi da Falha tudo digratis. Tem estande que o periódico montou ao lado da tenda do telão. É mole?
Evolução: consegui entrar na internet no celular, mas operar o Facebook por ele tá flórida. Eita.

First Day em Paraty

O sol não deu as caras neste primeiro dia em Paraty, e como se podia prever, o centrinho histórico estava repleto de tucanos ansiosos pela palestra de abertura do mestre FHC (por todos cantos nos esbarramos em madames de Higienópolis) . Ele vai falar sobre Gilberto Freyre, um sociólogo que só agora ganha destaque acadêmico, depois de passar muito tempo no limbo, por culpa do apoio aos milicos em 64 e por ter um pezinho no fascismo. (Meu amigo Wagner me soprou essa: a Petrobras, nas mãos agora do PT, não patrocinou a Flip 2010 por causa dessa tucanada.)

Arthur Nestrosvisk convidou talentos de vários cantos do Brasil e do mundo para a abertura musical da Flip 2010, tava bacana, mas não trouxe Celso Sim, com quem esteve em turnê por Portugal recentemente. É uma pena... eu adoro a voz de Sim. Eu digo "Sim"!!! O show do Edu Lobo deu sono, preferi ficar na companhia de um simpático cão vira-lata que me deu atenção e carinho, mas como todo outsider que se preze, o danado me abandonou depois de me conquistar.

A Falha de S. Paulo, em sua estande, liberou café e capuccino digrátis neste primeiro dia; leitores e assinantes do periódico, como eu, agradecem a mamata. E por falar nisso, a gente encontra um monte de famosidade pelos cafés de Paraty (tem globais por todo o lado). Fico por aqui. Logo volto com mais veneno. Eita.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Festança Literária

Amanhã, quarta-feira, estarei na FLIP em Paraty - farei aqui diariamente críticas, elogios e xingamentos do evento. Informes diretos dos locais dos acontecimentos flipísticos ou de qualquer canto bacana da cidade (até dos bares onde, com certeza, me esbaldarei com as famosas cachaças paratienses. Eita!).


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O MISSISSIPPI É AQUI

No começo dos anos 90 fui entrevistar um cara para o Jornal do Butantã numa rua estranhamente pobre do Rio Pequeno, perifa de Sampa. Ruas pobres por lá não são nada estranho devido às desigualdades que todos conhecem bem, mas naquela rua havia algo anormal, diferente; aquela rua possuía alma. Uma alma blueseira. Um Robert Johnson que atendia a todos, com fineza, por Ismael Costa. Dizem que Johnson fez pacto com o tinhoso, vendendo a alma para ser o virtuoso que foi (história que ele mesmo narra na canção “Me and The Devil Blues”), dizem que até os 16 anos trabalhou no campo, depois seguiu carreira musical, se metendo em bebedeiras, brigas e prisões. Dizem também que era dado a conquistar e a espancar as mulheres com quem se envolvia - há a lenda de que ele teria sido envenenado (e morto precocemente aos 27 anos) por algum marido ciumento.

Já o bluesman Ismael Costa, daquela rua estranha do RP, trabalhava honestamente há muito tempo no CAU (Centro Administrativo do Unibanco) na Rodovia Raposo Tavares, no Km 15 (onde meus três irmãos mais velhos que eu também trabalharam). Ismael construiu uma edícula num "barranco" onde morava com a esposa; aonde seus poucos e interessados alunos iam aprender sobre o ritmo que influenciou Jazz, Rock, Rhythm and blues, Soul music, e o Pop também. Orgulhoso, me contou como construiu seu inseparável violão Dobro metálico; como o fez e por onde andou para comprar cada componente. Apesar da infância paupérrima, me falou dos caras malucos (com grana) que conheceu nos anos 70, cujos pais traziam discos de Blues da Europa ou dos EUA, mexendo para sempre com o gosto musical de Ismael. Nesta entrevista descobri John Lee Hooker, Son House e Robert Johnson, pai, filho e espírito santo para o blues boy Ismael. Me falou do sonho de conhecer o Estado do Mississippi que o remeteria à origem Blues.

Em 1995 organizei alguns eventos musicais num pequeno restaurante do qual fui sócio, realizando uma noite dedica ao Blues; é lógico que Ismael Costa não poderia ficar de fora. Outros músicos também se apresentaram, mas a noite foi de Ismael. Todos de boca aberta aos primeiros toques daquele Dobro metálico, todos atentos à voz rouca de velho blueseiro de Chicago ou do Mississippi. Era como se Robert Johnson tivesse reencarnado naquele cara, lá naquele pequeno bar e restaurante do Rio Pequeno. O fim daquela noite terminou numa inesquecível jam session com todos os músicos no palco, com Ismael de destaque principal.

E no sábado passado, num boteco da esquina da Capote Valente com a Teodoro Sampaio, meu amigo Marcinho (guitarrista da honesta banda roqueira MandaChuva) me contou que Ismael Costa morreu há mais de quatro anos. Fiquei triste pra cacete. Assim como eu, muita gente achava que o lugar devido a Ismael seria o reconhecimento, um lugar entre os melhores músicos brasucas. Não rolou isso e nem a sua sonhada viagem ao "Delta" do Mississippi. Generoso, doou sua gaita diatônica pouco tempo antes de morrer ao outro membro da Mandachuva, ao meu amigo Rinaldo.

Diferentemente de Robert Johnson, Ismael não se envolvia em brigas, era calmo demais para isso. Não bebia mais que uma dose de conhaque durante qualquer apresentação. Acho que nunca espancou mulher alguma, mas morreu triste e solitário, como num solo de Blues, depois que a esposa o deixou. O baque foi doloroso. Dizem que Ismael degringolou depois da separação, parece que enfiou os dois pés na jaca: tem gente que diz que ele estava consumindo de tudo. Não sei por que, mas me consolei quando Marcinho asseverou depois de sorver outro doloroso gole de sua cerveja: “Zeca, eu não tiro a razão da esposa, e nem a de Ismael ao escolher o seu final.”

PS: num papo sobre o nosso bluesman (depois de escrever este texto), o meu amigo Old me soprou a estória de que Ismael fora integrante da “Santa Gang”, banda que abriu diversos shows da jurássica “Made in Brazil” lá nos anos 70.


(Na foto, O vellho bluesman Ismael e seu violão Dobro, acompanhado por Ailton Rios, na gaita)