quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Flip 2010.

Aqui segue, finalmente, alguns registros fotográficos que fiz em agosto na oitava FLIP na bela cidade de Paraty. Demorou porque as conexões aqui de casa estavam umas lástimas (tanto a banda fixa quanto a 3G) - eu não conseguia upiludiar as imagens pro blog, o que me fez perder a paciência com essas operadoras que não cumprem as velocidades prometidas. Infelizmente também perdi a empolgação inicial no resumo que eu desejava fazer do evento. Perdoem-me.



Abaixo, o poeta Chacal.
Os poetas Antônio Cícero, Chacal e Ferreira Gullar (mais o prof. Eucanaã Ferraz) lendo na íntegra o livro "Alguma Poesia" de Drummond que completa 70 agora, em 2010.
Minha cara denuncia a puta ressaca que eu me encontrava logo de manhã. Urrg!

Essa sensacional banda de jazz circulava pela cidade - era patrocinada pela cerveja Bohemia (eu que sou apreciador da Bohemia escura reclamei a falta do produto na cidade).
Um ecologista apareceu distribuindo gratuitamente mudas de diversos tipos de planta.

Imagens do povo que circulou pela oitava edição Flip.


Confesso que me aproveitei do WiFi da estande da Falha de S. Paulo, onde também bebi muito café na faixa. Eita.
No meio da praça havia um circo de livros.
Um grande sucesso nesta edição da FLIP, sem dúvida, foi o capitão Jack Sparrow de bronze; constamente rodeado pelos fãns mirins.

Alguns paratyenses que nem se deram conta da festança literária (certo eles).



Esta casa foi o cenário do bar do seu Nacib (Marcelo Martroianni) no filme Gabriela.
O melhor local para bebericar e para ser visto e encontrado, obviamente.

domingo, 15 de agosto de 2010

Bienal de Livros???

Depois da FLIP em Paraty fui, nesta sexta, ver a Bienal do Livro daqui de Sampa. Ufa! Caminhei mais de 4 horas entre livros. Ops, eu quis dizer entre “vendedores” de assinaturas de revistas. Um fato chato que se repete a cada bienal é a proliferação dos “espertos” vendedores de assinaturas de todo tipo de revista. Espertos porque inovam cada vez mais suas abordagens – chegando a irritar meu pobre saquinho. A tática dessa vez é interpelar a vítima perguntando se ela já recebeu as “cortesias” de sua revista. Daí arrastam o mané para a estande para convencer o coitado. Dica: se você vai a Bienal se prepare para essa pentelhagem.

Outra coisa: cadê os vantajosos “descontos” das editoras? Penso eu que o legal desses eventos, para quem é leitor, é o desconto nos livros. Se o beneficio não existe, então, pra que uma bienal de livros? Os descontos que vi nesta sexta não refrescam o bolso de quem curte leitura, aliás, os pequenos e ridículos abatimentos rolavam apenas em edições desprezíveis de pouca circulação (melhor dizendo, só em “lixeira”). Outra coisa que proliferou neste ano foi a participação de editoras dedicadas à publicação de todo tipo de crença; até os seguidores da Cultura Racional, aquela seita na qual o grande Tim Maia se enchafurdou nos anos 70, montou estande.

Por fim, o que salva esse tipo de evento é o encontro do leitor com seus autores diletos, mas quando descubro que padre Marcelo e Regina Duarte estão entre os convidados daquele dia, sinto uma sensação de arrependimento. Eita, meu saco.
Um tema recorrente nos debates literários (Flip e Bienal) é o futuro do livro, que alguns dizem ameaçado pelos E-books (kindle, Ipads e etecétera...). Chamam tecnólogos, professores, escritores, especialistas de tudo quanto é coisa pra falar do assunto, sendo que a formação do leitor, isso sim, um tema crucial, acaba negligenciado.
Enfim, não cabe a mim desestimular aqueles que queiram conhecer a Bienal de Livros de 2010. Na verdade eu desejo boa sorte a todos. Que todos possam prestigiar o evento, sem aborrecimentos. Que voltem com as sacolas cheias e não de saco cheio.

sábado, 7 de agosto de 2010

Sábado-Feira em Paraty

Logo de manhã, aqui em Paraty, tem o britânico Terry Eagliton que veio rebater o que o cientista Richard Dawkins, que esteve na Flip2009, escreveu sobre religião; Richard é um darwinista elaboradíssimo, então vai ser porrada, e eu quero ver – essa eu não perdo.

Hoje é dia do excêntrico cartonista Robert Crumb (a segunda estrela da Flip 2010, depois de Isabel Allende). Conheci o trabalho e a importância de Crumb através de leituras sobre contra-cultura e cultura pop dos anos 60 e 70. Aqui em Paraty ele fez sucesso entre crianças e adolescentes (e muitos marmanjos aussi) – vou vê-lo, mas sem paixões, já que sou um ET que viu pouco quadrinho na vida.

Quero ver, e com entusiasmo, a homenagem a Drummont por Antônio Cícero, Chacal, Ferreira Gular. Eles farão leitura de poemas do primeiro livro de Drummont, “Alguma Poesia (que completa 80 anos em 2010)”. Mais à noite tem o documentário “José & Pilar” de Miguel Gonçalves Mendes sobre José Saramago. Esse longa, que é uma homenagem da Flip a Saramago, ainda não entrou em cartaz no Brasil.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Paraty: segundo dia.

Acordei com uma leve ressaca (foi a Coqueirinho paratiense a culpada). Chovia enquanto tomava café da manhã, mas o sol finalmente deu as caras (tá um pouco tímido ainda). Daqui a pouco vou tomar uma aguinha de coco pra rebater e recuperar a dignidade. Cerva e mais Coqueirinho só for mais à noite.

Tenho mesa de debate às 15h30 com o Reinaldo Moraes. Sou leitor assumido do cara. Já disse isso: Reinaldo, Marcelo Rubens Paiva e Caio Fernando Abreu são responsáveis por eu gostar de narrativas soltas, sem lirísmos, ou outras firulas. Revolucionaram a cabeça e a escrita do Zequinha desde os anos 80.

Como assinante e leitor, eu vivo me queixando da Falha de S. Paulo, agora vejam minha contradição: estou tomando cafezito, lendo jornal e usando wifi da Falha tudo digratis. Tem estande que o periódico montou ao lado da tenda do telão. É mole?
Evolução: consegui entrar na internet no celular, mas operar o Facebook por ele tá flórida. Eita.

First Day em Paraty

O sol não deu as caras neste primeiro dia em Paraty, e como se podia prever, o centrinho histórico estava repleto de tucanos ansiosos pela palestra de abertura do mestre FHC (por todos cantos nos esbarramos em madames de Higienópolis) . Ele vai falar sobre Gilberto Freyre, um sociólogo que só agora ganha destaque acadêmico, depois de passar muito tempo no limbo, por culpa do apoio aos milicos em 64 e por ter um pezinho no fascismo. (Meu amigo Wagner me soprou essa: a Petrobras, nas mãos agora do PT, não patrocinou a Flip 2010 por causa dessa tucanada.)

Arthur Nestrosvisk convidou talentos de vários cantos do Brasil e do mundo para a abertura musical da Flip 2010, tava bacana, mas não trouxe Celso Sim, com quem esteve em turnê por Portugal recentemente. É uma pena... eu adoro a voz de Sim. Eu digo "Sim"!!! O show do Edu Lobo deu sono, preferi ficar na companhia de um simpático cão vira-lata que me deu atenção e carinho, mas como todo outsider que se preze, o danado me abandonou depois de me conquistar.

A Falha de S. Paulo, em sua estande, liberou café e capuccino digrátis neste primeiro dia; leitores e assinantes do periódico, como eu, agradecem a mamata. E por falar nisso, a gente encontra um monte de famosidade pelos cafés de Paraty (tem globais por todo o lado). Fico por aqui. Logo volto com mais veneno. Eita.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Festança Literária

Amanhã, quarta-feira, estarei na FLIP em Paraty - farei aqui diariamente críticas, elogios e xingamentos do evento. Informes diretos dos locais dos acontecimentos flipísticos ou de qualquer canto bacana da cidade (até dos bares onde, com certeza, me esbaldarei com as famosas cachaças paratienses. Eita!).


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O MISSISSIPPI É AQUI

No começo dos anos 90 fui entrevistar um cara para o Jornal do Butantã numa rua estranhamente pobre do Rio Pequeno, perifa de Sampa. Ruas pobres por lá não são nada estranho devido às desigualdades que todos conhecem bem, mas naquela rua havia algo anormal, diferente; aquela rua possuía alma. Uma alma blueseira. Um Robert Johnson que atendia a todos, com fineza, por Ismael Costa. Dizem que Johnson fez pacto com o tinhoso, vendendo a alma para ser o virtuoso que foi (história que ele mesmo narra na canção “Me and The Devil Blues”), dizem que até os 16 anos trabalhou no campo, depois seguiu carreira musical, se metendo em bebedeiras, brigas e prisões. Dizem também que era dado a conquistar e a espancar as mulheres com quem se envolvia - há a lenda de que ele teria sido envenenado (e morto precocemente aos 27 anos) por algum marido ciumento.

Já o bluesman Ismael Costa, daquela rua estranha do RP, trabalhava honestamente há muito tempo no CAU (Centro Administrativo do Unibanco) na Rodovia Raposo Tavares, no Km 15 (onde meus três irmãos mais velhos que eu também trabalharam). Ismael construiu uma edícula num "barranco" onde morava com a esposa; aonde seus poucos e interessados alunos iam aprender sobre o ritmo que influenciou Jazz, Rock, Rhythm and blues, Soul music, e o Pop também. Orgulhoso, me contou como construiu seu inseparável violão Dobro metálico; como o fez e por onde andou para comprar cada componente. Apesar da infância paupérrima, me falou dos caras malucos (com grana) que conheceu nos anos 70, cujos pais traziam discos de Blues da Europa ou dos EUA, mexendo para sempre com o gosto musical de Ismael. Nesta entrevista descobri John Lee Hooker, Son House e Robert Johnson, pai, filho e espírito santo para o blues boy Ismael. Me falou do sonho de conhecer o Estado do Mississippi que o remeteria à origem Blues.

Em 1995 organizei alguns eventos musicais num pequeno restaurante do qual fui sócio, realizando uma noite dedica ao Blues; é lógico que Ismael Costa não poderia ficar de fora. Outros músicos também se apresentaram, mas a noite foi de Ismael. Todos de boca aberta aos primeiros toques daquele Dobro metálico, todos atentos à voz rouca de velho blueseiro de Chicago ou do Mississippi. Era como se Robert Johnson tivesse reencarnado naquele cara, lá naquele pequeno bar e restaurante do Rio Pequeno. O fim daquela noite terminou numa inesquecível jam session com todos os músicos no palco, com Ismael de destaque principal.

E no sábado passado, num boteco da esquina da Capote Valente com a Teodoro Sampaio, meu amigo Marcinho (guitarrista da honesta banda roqueira MandaChuva) me contou que Ismael Costa morreu há mais de quatro anos. Fiquei triste pra cacete. Assim como eu, muita gente achava que o lugar devido a Ismael seria o reconhecimento, um lugar entre os melhores músicos brasucas. Não rolou isso e nem a sua sonhada viagem ao "Delta" do Mississippi. Generoso, doou sua gaita diatônica pouco tempo antes de morrer ao outro membro da Mandachuva, ao meu amigo Rinaldo.

Diferentemente de Robert Johnson, Ismael não se envolvia em brigas, era calmo demais para isso. Não bebia mais que uma dose de conhaque durante qualquer apresentação. Acho que nunca espancou mulher alguma, mas morreu triste e solitário, como num solo de Blues, depois que a esposa o deixou. O baque foi doloroso. Dizem que Ismael degringolou depois da separação, parece que enfiou os dois pés na jaca: tem gente que diz que ele estava consumindo de tudo. Não sei por que, mas me consolei quando Marcinho asseverou depois de sorver outro doloroso gole de sua cerveja: “Zeca, eu não tiro a razão da esposa, e nem a de Ismael ao escolher o seu final.”

PS: num papo sobre o nosso bluesman (depois de escrever este texto), o meu amigo Old me soprou a estória de que Ismael fora integrante da “Santa Gang”, banda que abriu diversos shows da jurássica “Made in Brazil” lá nos anos 70.


(Na foto, O vellho bluesman Ismael e seu violão Dobro, acompanhado por Ailton Rios, na gaita)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

"6 RAPIDINHAS"

1. Hoje, no SESC Santana, tem “Pagu 100 Oswald 120”, um espetáculo musical com José Miguel Wisnik, Celso Sim, Cristóvão Bantos, celebrando a obra poética dos escritores paulistas Patrícia Galvão (Pagu) e Oswald de Andrade. SESC Santana, av. Luiz Dumont Villares, 574, às 21h – de 4 a 16 realitos.

2. Não deixem de ver nos cinemas, nem que chova canivete, o excelente documentário que mostra a extraordinária trajetória do grupo de dançarinos brasucas, “DZI CROQUETTES”, que abalou Paris. Em Sampa está em cartaz no cine Belas Artes (sala Mario de Andrade), no Frei Caneca Unibanco Arteplex (sala 5) e no Reserva Cultural (sala 3)

3. Outro documentário bacana é "Uma Noite em 67" de Ricardo Calil e Renato Terra, que estréia amanhã. Um filme sobre o dia da final do 3º Festival da Música Popular, promovido pela TV Record em 21 de outubro de 1967. Tem algumas imagens inéditas e muitos depoimentos. Entra em cartaz no Frei Caneca Unibanco Arteplex e no
Espaço Unibanco Augusta.

4. E nos cinemas tem também o imperdível filme de Tarantino, "À Prova de Morte" - belos diálogos, belas moçoilas, e, principalmente, bela trilha anos 70 - um final que deixa satisfeita qualquer feminista. O longa está em cartaz em várias salas aqui em Sampa.

5. Estreou ontem “O Predador Entra Na Sala” de Marcelo Rubens Paiva. A peça, dirigida pelo autor, retrata os conflitos de idade entre uma jovem e um velho roqueiro. Com Raul Barretto e Anna Cecília Junqueira, está no Espaço Parlapatões (as quartas e quintas), Praça Roosevelt, 158 (15 e 30 realitos). No ano passado assisti outra montagem escrita e dirigida por Marcelo Paiva, "A Noite mais fria do ano", que considero uma das melhores que vi em 2009.

6. Nesta sexta e sábado acontece o lançamento de "Um Bom Lugar pra Morrer", novo livro de poemas de Mario Bortolotto. No dia 30, a partir das 19h, rola na Mercearia São Pedro, rua Rodésia, 34, e dia 31, no Coletivo Galeria, rua dos Pinheiros, 493, a partir das 20h Abaixo, um poema do livro.

UM LUGAR LEGAL PRA ESTAR
(WHEN THE MUSIC STOPS)

Ela me disse casualmente
que havia notado a mancha de sangue na minha camisa
Disse a ela: Não se preocupe, não é nada
Ela respondeu: Eu não tô preocupada
Resmunguei: é melhor assim
Achei que podia me divertir um pouco
assistindo uma luta de boxe na tv
Tirei a camisa manchada de sangue e joguei no tanque
Ela vestiu uma micro-saia e saiu pra rua
Abri uma cerveja e resolvi esperar
Os ponteiros do relógio eram guilhotinas no meu pescoço
Quando ela voltou, não falei nada
Fiquei no escuro vendo ela se mexer
deixando cair sua saia
no caminho pro banheiro
Deixou a luz acesa e ouvi o barulho
não vou usar de eufemismos nesse momento
pra dizer o que ela estava fazendo
somos um casal com tempo de serviço
nossa indiferença mútua provava isso
meu enorme peso no sofá atestava isso
Ela acendeu um cigarro no escuro da sala
e a chama do isqueiro fez com que ela me notasse
"é mais difícil do que você imagina", ela disse
e o seu desprezo me acertou como um blefe de pôquer
Ainda ficou um tempo olhando pra mim
antes de vencer o orgulho e perguntar
"O que era a mancha na sua camisa?"
"Já disse. Não é nada. Não precisa se preocupar"
Ela soltou um foda-se e foi pro quarto,
deitou e ficou fumando olhando o teto
Levantei e fui até o banheiro
Cambaleei e tive que me apoiar na porta
Abri o armário e peguei o mercúrio cromo
ou você não sabia que a maioria das histórias de amor
terminam com alguém limpando as feridas?

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Futebol Com as Veias Abertas

Por ter horários de trabalho flexíveis me preparei para ver muitos jogos da copa 2010 na África, agora tô sentido falta dos bate-papos sobre as pelejas que rolavam no elevador, no busão, no boteco, no facebook e no twitter. Entonces, a copa se foi, mas para quem gosta do bom futiba (como eu) republico aqui o belíssimo texto INSÓLITO que o escritor Eduardo Galeano publicou na Falha de S. Paulo de hoje.

JÁ TENHO SAUDADE DAS VUVUZELAS, DA FESTA E DO LUTO, PORQUE, ÀS VEZES, O FUTEBOL É UMA ALEGRIA QUE DÓI.

Pacho Maturana, colombiano, homem de vasta experiência nestas lides, diz que o futebol é um reino mágico, onde tudo pode acontecer. A Copa confirmou suas palavras: foi um Mundial insólito.
Insólitos foram os dez estádios onde se jogou, belos, imensos, que custaram uma dinheirama. Não se sabe como fará a África do Sul para manter em atividade esses gigantes de cimento, desperdício multimilionário fácil de explicar, mas difícil de justificar em um dos países mais injustos do mundo.
Insólita foi a bola da Adidas, ensaboada, meio louca, que fugia das mãos e desobedecia aos pés. A tal da Jabulani foi imposta, apesar de não agradar aos jogadores. De seu castelo em Zurique, os senhores do futebol impõem, não propõem. Têm o hábito.
Insólito foi a todo-poderosa burocracia da Fifa ter reconhecido, após tantos anos, que será preciso estudar uma maneira de ajudar os árbitros nas jogadas decisivas. Não é muito, mas já é alguma coisa.
Até mesmo esses surdos de surdez voluntária tiveram de ouvir os clamores desencadeados pelos erros de alguns juízes, que no último jogo chegaram a ser horrorosos. Por que temos que ver na TV o que os árbitros não enxergaram ou, quem sabe, não puderam enxergar?
Clamores do bom senso: quase todos os esportes -basquete, tênis, beisebol e até esgrima e corridas de carros- usam a tecnologia para sanar dúvidas. O futebol não.
Os árbitros podem consultar uma invenção antiga chamada relógio, para medir a duração dos jogos e o tempo a descontar, mas estão proibidos de passar disso. E a justificativa oficial seria cômica se não fosse simplesmente suspeita: o erro faz parte do jogo, dizem. E nos deixam boquiabertos, descobrindo que "errare humanum est".
Insólito foi o primeiro Mundial africano ficar sem países africanos, incluindo o anfitrião, já nas oitavas. Só Gana sobreviveu, até perder para o Uruguai no jogo mais emocionante do torneio.
Insólito foi a maioria das seleções africanas manter viva sua agilidade, mas perder autoconfiança e fantasia. Muitos correram, mas poucos dançaram. Há quem diga que os técnicos, quase todos europeus, tenham contribuído para esse esfriamento.
Se assim foi, fizeram pouco a um futebol que tanta alegria prometia. A África sacrificou suas virtudes em nome da eficácia, e a eficácia se destacou por sua ausência.
Insólito foi que alguns africanos brilharam, mas nas seleções europeias. Quando Gana pegou a Alemanha, enfrentaram-se dois irmãos negros, os Boateng: um com a camisa de Gana e o outro com a da Alemanha. Dos ganenses, nenhum jogava o campeonato do país. Dos jogadores da Alemanha, todos jogavam o Alemão. Como a América Latina, a África exporta mão e pé de obra.
Insólita foi a melhor defesa do torneio, obra não de um goleiro, mas de um goleador. O uruguaio Suárez deteve com as duas mãos, na linha do gol, uma bola que teria eliminado seu país. Graças a essa patriótica loucura, ele foi expulso, mas o Uruguai não.
Insólito foi o percurso do Uruguai. Nosso país, que tinha entrado na Copa a duras penas, jogou dignamente, sem se render, e chegou a ser um dos melhores. Alguns cardiologistas nos avisaram que o excesso de felicidade podia ser perigoso à saúde.
Muitos uruguaios, que parecíamos condenados ao tédio, festejamos esse risco, e as ruas viraram festa. O direito de festejar os próprios méritos é sempre preferível ao prazer que alguns sentem com a desgraça alheia.
Ficamos em quarto lugar. Fomos o único país que pôde evitar que a Copa acabasse sem ser mais que uma Eurocopa. Não por acaso, Forlán foi eleito o melhor jogador.
Insólito foi o campeão e o vice da Copa anterior terem voltado para casa sem abrir as malas. Em 2006, Itália e França fizeram a final. Agora, encontraram-se na saída do aeroporto. Na Itália, multiplicaram-se as críticas a um futebol jogado para impedir que o rival jogue. Na França, o desastre provocou crise política e incendiou fúrias racistas, porque quase todos os atletas que cantaram a "Marselhesa" eram negros.
A Inglaterra também durou pouco. Brasil e Argentina sofreram cruéis banhos de humildade. Meio século atrás, a Argentina foi recebida com chuva de moedas após uma Copa desastrosa, mas desta vez recebeu boas- -vindas de uma multidão que crê em coisas mais importantes que o êxito ou o fracasso.
Insólito foi que faltaram ao encontro os superastros mais aguardados. Messi quis comparecer, fez o que pôde, e viu--se alguma coisa. Dizem que Cristiano Ronaldo esteve lá, mas ninguém o viu: talvez tenha estado ocupado demais vendo a si mesmo.
Insólito foi uma nova estrela, inesperada, ter surgido da profundeza dos mares e se elevado ao ponto mais alto do firmamento futebolístico.
É um polvo que vive num aquário da Alemanha, de onde formula suas profecias. Chama-se Paul, mas poderia se chamar Polvodamus. Antes de cada jogo, davam a ele a opção de escolher entre mexilhões que levavam as bandeiras dos dois rivais. Paul comia os mexilhões do vencedor, e não errava.
O oráculo octópode influiu decisivamente sobre as apostas, foi ouvido no mundo inteiro com religiosa reverência, foi odiado, amado e até caluniado por alguns ressentidos, como eu, que chegamos a suspeitar, sem provas, que o polvo era um corrupto.
Insólito foi que no fim houve justiça, o que não é frequente no futebol e na vida. A Espanha venceu a Copa pela primeira vez. Quase um século esperando. O polvo anunciou, e a Espanha desmentiu minhas suspeitas. Ganhou merecidamente, por obra e graça de seu futebol solidário, um por todos, todos por um, e pelas habilidades assombrosas de um pequeno mago, Iniesta. Ele prova que, às vezes, no reino mágico do futebol, há justiça.

TRANCADO
Quando a Copa começou, pendurei na porta de minha casa um cartaz que dizia "Fechado em razão do futebol". Quando o tirei da porta, um mês depois, já tinha disputado 64 partidas, cerveja na mão, sem me mexer de minha poltrona favorita.
Essa proeza me deixou exausto, com os músculos doloridos e a garganta gasta. Mas já estou com saudade.
Já começo a ter saudade da insuportável litania de vuvuzelas, da emoção de goles impróprios para cardíacos, da beleza das melhores jogadas repetidas em câmara lenta.
E também da festa e do luto, porque, às vezes, o futebol é uma alegria que dói, e a música que celebra alguma vitória dessas soa muito próxima do silêncio retumbante do estádio vazio, onde a noite já caiu e algum derrotado continua sentado, sozinho, incapaz de se mexer, em meio às imensas arquibancadas sem ninguém.

EDUARDO GALEANO, escritor e jornalista uruguaio, é autor de "As Veias Abertas da América Latina", "Memorias del Fuego" e "Espelhos Uma História Quase Universal"

Tradução de CLARA ALLAIN

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Quase um Necrológio.

Se fiquei um tempinho sem aparecer no blog é porque estou agilizando algumas coisas para antes dos poucos dias de férias que tenho em julho. Mas agora volto cheio de vontade. Um pouco triste por tantos falecimentos nestes últimos dias. Se eu os tivesse relatado aqui o blog pareceria um necrológio. Primeiro foi Saramago, depois Guzik; nas semanas seguintes morreram o editor e poeta Massao Ohno e o grande Roberto Piva, que por falta de grana pro seu tratamento médico, em março deste ano, participei de um encontro pra lá de bacana onde rolou muita música, declamações e declarações de admiração ao nosso primeiro Beatnik ( uma coincidência: Piva, que retratava a dureza humana na metrópole, foi editado pela primeira vez por Massao Ohno). É tamanha minha admiração por Piva que já falei dele em diversos posts por aqui. Na sexta passada passou um documentário na TV Cultura com depoimentos de amigos do poeta, como a do professor Davi Arrigucci Jr que disse que num encontro entre nobres acadêmicos paulistanos, o ex-presidente FHC fora eleito o “Intelectual do Ano”. Piva, com muito vinho na cachola, bradou para o público presente: “se Fernando Henrique é o ‘intelectual do ano’ eu sou o ‘intelectual do ÃNUS’”. Certa vez, Piva fora convidado por alunos de uma faculdade para falar sobre democracia, antes de iniciar o bate-papo o poeta disse não saber por que tinha sido convidado, já que ele era um monarquista assumido. Piva se apropriava da ironia de Salvador Dali, que também se assumia monarquista, por acreditar que enquanto o poder se centraliza, na monarquia, num lugar somente, o povo vai farra em qualquer canto. Coisa de maluco.
Especialmente para o blog eu filmei Alberto Marsicano, Mario Bortolotto e Xico Sá durante a homenagem ao Piva que rolou no Espaço Cultural B_arco em março passado. Para vê-los clique
aqui.

Agendando: Hoje, segunda-feira, dia 12, a partir das 10h até 17h, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, vai falar sobre as propostas de mudanças da Lei de Direito Autoral no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149). O debate é sobre o autor, o artista e o direito autoral brasileiro, promovido pelo Conselho Brasileiro de Entidades Culturais. Devem participar escritores, dramaturgos, atores, cineastas, músicos, etc.
Às 19h na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, ainda na Av. Paulista 2073, vou ao bate-papo entre os geniais Raimundo Carrero e Reinaldo Moraes
Na quinta-feira, dia 15, às 20h, tem bate-papo com a escritora e filosofa Marcia Tiburi no Sesc-Vila Mariana. Vai rolar também o lançamento do novo romance de Tiburi, “O Manto”.
Bom. Já estou com a reserva garantida no Hostel de Paraty para a FLIP 2010, que este ano tá meio chocha. De legal estarão por lá os historiadores Peter Burke e Robert Darnton, o músico Lou Reed, e o quadrinista Robert Crumb. Entre os brasucas só verei Ferreira Gullar, Reinaldo Moraes e Hermano Viana. O homenageado deste ano é o antropólogo Gilberto Freyre, para tal, a organização da Flip convidou o “pseudo-sociólogo” (as aspas são minhas) Fernando Henrique Cardoso para a cerimônia de abertura da qual eu não participarei nem de graça. FHC pra mim está morto e enterrado. Como sabiamente diz minha mãe, esse sujeito “não fede nem cheira”.
Abaixo, um soneto que o poeta Glauco Mattoso fez para Roberto Piva.

PROFANO PROPHETA [soneto 3390]

Esperma de palavra se deriva
em fertil mente e em lyra creativa.
Semantica ou syntaxe, só, não basta
nem são imprescindiveis metro e rima
si a escripta surprehende e a penna é vasta.

Conheço um tal poeta e nelle vejo
de olympicas metropoles o exgotto,
o gozo azul de impubere garoto,
o samba em harpa e o rock em realejo.

É magico e sublime o pederasta
que do maldicto mytho se approxima
e do castiço canone se afasta.

No orgasmo oral dos jovens está viva
a chamma que deixou Roberto Piva.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Um Ator


Neste fim de semana o teatro paulistano perdeu o ator Alberto Guzik. Abaixo reproduzo o texto que escrevi em fevereiro de 2009 depois que assisti ao excelente monólogo da “Velha”, peça que Guzik estreara, na ocasião, no teatro Satyros. A última vez que me encontrei com Guzik foi nas Satyrianas de 2009, ele bebia vinho numa mesa de um bar da Praça Roosevelt, então, um pouco atrasado, faço um brinde a Dioniso, a Guzik.

“Putz! De forma alguma levo a sério o que críticos da Falha de S. Paulo escrevem diariamente sobre filmes, shows, teatros, etecétera e tal. Não tenho mais a assinatura do Estadão, mas quando tinha não respeitava seus críticos também. Se eles dizem que tal show ou determinado espetáculo é desprezível não dê atenção, se botam quatro estrelinhas para qualificarem positivamente filme de diretor badalado desconfie.
Acho que, tanto aqui como no resto do mundo, crítico profissional (e "homens-do-tempo") não goza de confiabilidade e respeito. Deve ter um monte de razão para isso acontecer, e não vou, aqui, meter o meu bedelho pra falar desse assunto do qual não domino – porque pra fazer a “crítica da crítica” é necessário um conhecimento mais profundo da atividade e fundamentalmente de Arte.

Bueno. Mesmo com todos esses maus predicados da profissão quero falar bem de Alberto Guzik. Conheci pessoalmente esse cara na Flap 2006, ali no Satyros da Roosevelt. Rolava um debate e ele falava sobre produção de texto teatral e de sua longa carreira de crítico dessa área. O que diferencia Guzik é que ele dá a cara pra bater; nesta quarta-feira, dia 11, ele estréia MONÓLOGO DA VELHA APRESENTADORA no Satyros I. O texto é de Marcelo Mirisola e mostra o desabafo da velha Febe Camacho, que vem do teatro de revista e dos tempos históricos da televisão brasileira - ela está furiosa porque sua empregada foi seqüestrada e exigem dinheiro para liberar a mulher.

Guzik já atuou em "Toda Nudez Será Castigada" – de Nelson Rodrigues; "On The Road" – baseado em obras de Sam Shepard; "Traições" – de Jarbas Capusso Filho; "Atire a Primeira Pedra" – baseado em A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues.
E pra quem não se lembra (ou não o conhece) Guzik tá há muito tempo falando de teatro em programas da TV Cultura – Metrópolis e Vitrine.”

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Mais Libertações - Bookcrossing

Diferentemente do que fiz dessa vez informo antecipadamente aqui os títulos dos livros que libertarei nesta semana. Assim, se alguém se interessar por alguns deles deixe um recado no blogue. Depois é só entrar no sitio do http://www.bookcrossing.com.br/ registrar o número do livro e boa leitura. Atenção: Esses livros que estou libertando são "livros" de verdade (não são virtuais). Infelizmente estou deixando-os somente em Sampa. A idéia é: se alguém por aqui se interessar a gente dá um jeito de entregar. Mais informações sobre o bookcrossing leia o post "Livro-Livre" de 17 de maio.



ACIDENTE – NOTÍCIAS DE UM DIA de escritora alemã Christa Wolf conta a história de um alemão que está a espera de um telefonema do hospital onde seu irmão está passando por uma cirurgia no cérebro, em vez disso recebe a notícia do acidente nuclear em Chernobyl, a mil milhas de distância de onde ele estava. No espaço de um único dia, em um lírico, potente fluxo de pensamento, o narrador enfrenta mortalidade e vida e, acima de tudo, a importação de cada momento vivido em aberto.





O NOVIÇO de Martins Pena é uma das poucas peças do autor em três atos. Ela gira em torno da deslealdade de Ambrósio que se casa por interesse com Florência, rica viúva, mãe da jovem Emília, do menino Juca e tutora do sobrinho Carlos, este o personagem principal da peça. O vilão Ambrósio já havia convencido a mulher a colocar Carlos (o noviço) em um seminário. Agora quer também internar Emília em um convento, pois ela se encontra em idade de casar e teria de receber um dote significativo da mãe. Igual destino aguarda o menino que deve se tornar frade. Assim, Ambrósio ficaria com toda a fortuna de Florência.





JAIME BUNDA AGENTE SECRETO do escritor angolano Artur Pestana, que assina “Pepetela”, é a história de um membro de uma família tradicional angolana cujo apelido faz óbvia referência a sua anatomia. Graças a uma rara capacidade de observação dos detalhes, e pela influência do primo, um figurão do governo, Jaime consegue o cargo de detetive estagiário do serviço secreto angolano. Cansado após dois anos de estágio sem muitas atribuições e tendo de agüentar a gozação dos colegas investigadores, Bunda, por fim, recebe a oportunidade de provar que é competente, em seu primeiro caso importante: desvendar o estupro e assassinato de uma adolescente. Diversão garantida.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

SARAMAGO SEM SER AMARGO


Na Flip de 2009, o mediador da mesa mais esperada, da qual participaria o escritor português Antonio Lobo Antunes, ironizou os organizadores da premiação do Nobel dizendo que eles cometeram um “erro de português” ao indicarem José Saramago vencedor do prêmio em 1998, causando risos na comedida (e aburguesada) platéia da famosa festa literária brasuca. É certo que muita gente confunde (intencionalmente) o escritor Saramago com o comunista Saramago, que mesmo após a queda do muro, do colapso soviético, continuava defendo o socialismo; tanto que, quase 100% das críticas dirigidas a ele advêm de um “ódio” irracional ao seu posicionamento político e não à sua obra literária. Acho normal quando a igreja Católica desce a lenha no ateu Saramago, já que ele nunca fez questão de esconder sua insatisfação (irritação) às “frivolidades” da igreja, dizendo que a bíblia não passa de “um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade” - o que vem desse entrevero, para mim, é chumbo trocado dos bons.

Ao mediador da Flip, eu afirmaria que só cheguei (assim como muita gente que conheço) a Lobo Antunes, graças a Saramago. Sim, porque minha geração não teve informação alguma sobre autores lusos contemporâneos – nosso acesso era somente aos patrícios do passado: Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camões e Bocage, isso de forma imposta em sádicos cursos pré-vestibulares. Pessoa, até dava barato, mas os outros... Bom. Saramago, no meu caso, foi arrebatador. O primeiro título que parou em minhas mãos foi “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, uma bomba. Na seqüência, li “Memorial do Convento” (outra bomba) e não parei mais. Assim sendo, naturalmente chegaram a mim (e eu gostei muito) os lusos José Luis Peixoto, José Eduardo Agualusa, João Melo, Mia Couto e, principalmente, Lobo Antunes.
Em 1997 estive num bate-papo sobre literatura no Mackenzie, aqui de Sampa, com a presença de Chico Buarque, Sebastião Salgado e José Saramago. O meu preconceito contra aquela histórica (e conservadora) faculdade me dizia que aquele encontro não acabaria bem, principalmente para o escritor português e suas convicções socialistas, agravado por sua pirra à igreja Católica. Ledo (Ivo) engano. Saramago não apenas foi reverenciado pelos alunos daquela escola, como fora o mais requisitado para autógrafos e afagos, após o evento – isso um ano antes de receber o Prêmio Nobel. Eu, que pensei num possível furor das moçoilas devido aos lindos olhos azuis de Chico Buarque, me dei mal.

Quanto a um possível radicalismo ideológico do escritor, eu lembro bem de sua declaração após o fuzilamento de dissidentes pelo governo cubano: “Cuba não ganhou nenhuma heróica batalha fuzilando esses três homens, mas perdeu a minha confiança, destruiu as minhas esperanças e defraudou as minhas expectativas". Depois que declarei meu desligamento incondicional ao Partido dos Trabalhadores, alguns amigos me perguntam se adotei nova sigla: de bate pronto respondo que sigo o mesmo partido de Saramago: o “PCP, Partido do Cidadão Preocupado, de tendência ultra pessimista”.

Então, meus amigos, nem preciso dizer que estou triste pela morte desse prolífico escritor. Quem quiser saber mais sobre Saramago eu indico “Caderno de Lanzorote I a V”; são os diários onde o escritor fala de seus amigos, da família e de sua condição de auto exilado em Lanzarote (uma ilha espanhola no Atlântico), depois de ter seus livros censurados pelo governo português no começo dos anos 90. Apesar de tudo, não percebi vestigio algum de amargura em tudo que li do escritor.

terça-feira, 8 de junho de 2010

FALSO DON JUAN

Abaixo, uma diminuta e deliciosa prosa desventuresca do macho perdido, o homem contemporâneo, que está em "Chabadabadá", atual cria do escriba Xico Sá, livro lançado ontem na Livraria Cultura.

“O Homem, a Lenda, o Mito do Falso Don Juan”

Uma das coisas mais hilárias, para não dizer infantis, dos modos de macho e os seus bê-á-bás, é o caso do falso don Juan. O homem, o mito, a fraude. Narrativas eróticas que jamais aconteceram à vera, apenas e tão somente na garganta, riacho de muitos peixes grandes, do contador de vantagens. A nossa mania começa logo nos verdes anos, na mentira de que não somos mais donzelos, e daí levamos ao túmulo, incorrigíveis e tarados Brás Cubas. No princípio, é uma vergonha assumir a virgindade no meio de tantos machões que nos desfiam suas epopéias com o mulherio. Aí contamos também a nossa “vasta experiência”. Não somos nada bocós ou bestas. Um amigo relata no botequim que traçou uma flor do bairro ou a gostosa da firma; ouve e coro ridículo carregado de chope, caldinho, torresmo e testosterona à milanesa: “comi muiiiito!” O falso don Juan é a doença infantil e incurável do machismo. Todo homem, assim como todo pescador que se preza, tem sempre uma aventura maior que a vara.

Serviço: ChabadabadáAventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha. Editora Record - R$ 38,00 realitos na Livraria Cultura (com cartão Mais sai por 30 paus)


Mais BookCrossing



Depois da alegre e desordenada parada gay de domingo, fui ver o interessante “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo” de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz; um road-movie sobre a história do geólogo (que não aparece em cena) que é enviado para realizar uma pesquisa de campo por várias cidades do sertão nordestino, lugares que serão desapropriados para construção do canal que vai transpor as águas do velho Chico. É bem bacana a relação que ocorre entre moradores desses locais com o geólogo, que aceita o trabalho após um fatal pé na bunda que levou da esposa.
No metrô, voltando pra casa, foi a vez de libertar “A Esfinge”, de Afrânio Peixoto. O livro, lançado em 1911, “fala do eterno conflito entre o homem e a mulher que se desejam, transposto para o ambiente requintado da sociedade carioca, em Petrópolis. Política, negócios, assuntos literários e artísticos, viagens ao exterior, são assuntos tratados no livro”. O maluco de tudo isso, que eu pouco consegui pesquisar (no São Google), é a suspeita que recai sobre Afrânio Peixoto (1876-1947) de que teria forjado sua eleição para imortal da Academia Brasileira de Letras pouco antes da publicação de “A Esfinge”, seu primeiro romance. O crítico literário e historiados Brito Broca (1903-1961) e João Ribeiro (1860-1934), um dos fundadores da ABL, disseram que “muitos entravam para a Academia por ‘portas travessas’, dois deles sem qualquer livro publicado: Graça Aranha e Afrânio Peixoto, que entrou para a Academia por meio da deslavada falsificação (...) Para justificar a eleição, Afrânio Peixoto escreveu rapidamente [em 3 meses] e publicou o romance ‘A esfinge’”.
Foi libertado também no metrô “Contando a Arte de Marcos de Oliveira”, de Oscar D’Ambrósio. Um livro biográfico/artístico (quase um catálogo) do talentosíssimo M. Oliveira (nascido em Ibiaporã, Mundo Novo, Bahia, em1980) que utiliza a figura do cangaceiro e da mulher brasileira como temática principal. O legal do trabalho desse jovem artista plástico é a intensidades das cores e a forma continua que apresenta seus personagens.

Ps: Bueno. Atendendo aos pedidos dos leitores do blog, a partir da próxima semana, em todas as segundas-feiras, vou relacionar aqui (com resenhas e fotos) os livros do Bookcrossing que libertarei durante aquela semana. Se alguém se interessar por algum título é só entrar em contato comigo, certo?


segunda-feira, 7 de junho de 2010

"CHABADABADÁ"


Hoje, logo mais à noite, vou ao lançamento da recente cria do escriba mais porreta do Crato, Xico Sá. “Chabadabadá” que tem o subtítulo “Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea Que se Acha” é um libelo condutor ao macho que se encontra perdido em auto-descrença, um “GPS” motivacional, filosofal, que trata da tragicomédia do atual mundo masculino apontando soluções que cabem a esse macho e, por tabela, à cria de sua costela. Originalíssimo, Xico nos lega um guia com trilha sonora (do filme “Um homem, Uma Mulher”de Claude Lelouch) , falando de todos esses entreveros prementes como fosse numa conversa de botequim. Como diz a bela orelha de Andrea Del Fuego, “Xico Sá é um colecionador de costumes (...) um voyeur incomum que participa da própria cena observada”.
Eu já li Chabadabadá de cabo a rabo em dois dias; o duro foi extrair do meu cocuruto o refrão que se popularizou nos anos 70 “...quem sabe sábado ela dá, sábado ela dá...”
Serviço: Lançamento, hoje, dia 07/06, de “Chabadabadá” na Livraria Cultura do Conjunto Nacional - Avenida Paulista, 2073 – a partir das 18h30.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Fatalidade


Ontem, quando fiquei sabendo do assassinato do escritor paranaense Wilson Bueno, nada atinei de sua morte, pois julgava desconhecê-lo. Mas lendo os comentários sobre a fatalidade da qual vítima, descobri que o cara fora o criador de um dos melhores jornais de poesia, conto e crônica que já pararam em minhas mãos. Tô falando do NICOLAU, um suplemento cultural famosíssimo nos anos 80 e 90. É fato que o Nicolau recebia apoio do governo estadual que bancava sua grande tiragem, no entanto tinha uma cara de independente. Um jornal fortemente regionalizado com toques da produção cultural de outros estados. A primeira vez que peguei um exemplar do Nicolau foi quando eu me preparava para o vestibular da PUC-SP, em 1987; se não estou enganado, a edição trazia o conto "ONÍRICO" de Caio Fernando Abreu. Foi no Nicolau que ouvi falar pela primeira vez de Dalto Trevisan, Mário Quintana e Alice Ruiz - nem preciso dizer que Paulo Leminski era personalidade constante no jornal. Bom. Não tenho certeza, mas acho que Nicolau não existe mais, pelo menos com o mesmo peso de antes. Numa entrevista ao site literário TRÓPICO, Wilson Bueno disse que o jornal foi até 1994 “quando entrou o [governador] Jaime Lerner, que colocou para secretário [estadual de cultura] um velho caduco, que praticamente expulsou a mim e a minha equipe” do suplemento. Além do conteúdo de primeira (divulgador de contos, poesias, resenhas, entrevistas, ensaios fotográficos, e HQs), Nicolau tinha um projeto gráfico inovador que impressionava, diferente, e muito antes das inovações tecnológicas da webdesign. Entre as quinquilharias que guardo há anos, com toda certeza, há algum exemplar do Nicolau perdido.
Wilson Bueno tinha 61 anos e escreveu mais de 10 livros, entre eles se destacam “Mar Paraguayo” de 1992, “Cristal” (1995), “Os Chuvosos” (1999), e de 2007,
“A Copista de Kafka”.


quinta-feira, 27 de maio de 2010

"II FESTA DO TEATRO"

Pra quem se interessou em ver a peça “Música Para Ninar Dinossauros” do Bortolotto é bom correr para os 7 pontos de distribuição de ingressos gratuitos porque são mais de 180 peças nesta II FESTA DO TEATRO de Sampa, que começa neste fim de semana e vai até o dia 04/06. Durante os dias 27,28 e 29, serão distribuídos os 40 mil ingressos, e os pontos estão na Lapa (Biblioteca Mário Schemberg), na Vila Formosa (Biblioteca Pref. Prestes Maia), Vila Nova Cachoeirinha (CCJ Ruth Cardoso), Teatro Municipal, SP Escola de Teatro, CCSP (Centro Cultural São Paulo). O evento é organizado pelo grupo PARALAPATÕES, CHAIN EVENTOS e J.LEIVA. Desta vez tem peças para todas as idades. A programação completa pra ver no www.festadoteatro.com.br

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Os Dinos do Bortolotto

Domingo passado fui ver outra peça do Bortolotto e fiquei novamente comovido, do mesmo jeito que quando vi Hotel Lancaster, Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet, Brutal, Medusa de Ray Ban, Uma Pilha de Louça Suja (?). Como sempre a gente encontra o drama de caras sem perspectiva de porra nenhuma nos textos do Marião, só que em "MÚSICA PARA NINAR DINOSSAUROS" são três velhos amigos, três sujeitos melancólicos sem o menor talento com as mulheres, por isso pagam putas para que os ouçam. Bebidas e copos espalhados. Um piano, um sofá e uma vitrola que toca Joe Cocker, Van Halen entre outros sons. Uma mesma música e um mesmo cenário se deslocando no tempo pra falar dos dinossauros expostos nas peles do Marião, do Lourenço Mutarelli e do Paulo de Tharso (o Picanha, que está divertidíssimo no seu personagem). Eu já vi o Bortolotto atuando na peça "Êxtase" (ainda em cartaz no CCBB daqui de Sampa) depois da merda toda que rolou com ele em dezembro passado. Assim que desci do taxi na rusvel vi o Marião sentado na entrada do teatro dos Parlapatões – faltavam mais de 20 minutos pro início da peça – , estava só; talvez nem se lembre mais de que foi ali que ele quase partiu pra outra. Cumprimentei-o como sempre, e ele, como sempre, atencioso com seus fãs (e eu sou fã do ator, do dramaturgo e do bluseiro Marião).
Nasci no finalzinho dos anos 60 e quem é dessa geração vai se identificar com os personagens. É que eles têm a sensação de estarem fora do tempo: quando havia a repressão da ditadura nos anos 70, a gente era criança e colecionávamos figurinhas Chapinhas de Ouro, Cavalo de Aço, e de times de futebol. Quando teve as Diretas-já, a gente era adolescente, estava rolando a abertura, mas só pensávamos em namorar. No impicha do Collor, a gente era velho demais pra virar cara-pintada. Ou seja: uma geração atrasada, deslocada, losers. Pra ninar a gente, o Marião colocou 6 gostosíssimas beldades em cena (que mesmo no lusco-fusco do palco, não dá para desgrudar os olhos). O chato é que aquela foi a última apresentação no Parlapatões. Talvez role outras duas na semana que vem no Dia do Teatro, é o que diz o blog Atire no Dramaturgo. No mais é torcer para que entre logo em cartaz outra peça do Marião (ou a mesma), porque vale à pena a gente se surpreender com os textos tocantes, honestos e poéticos do Bortolotto.

Eu, um dino emocionado.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

"Libertando" (Bookcrossing)

Como prometi, foi libertado neste sábado, na estação Sumaré do metrô daqui de Sampa, ADONAI de Jorge E. Adoum (1897-1958). O livro parece um romance histórico, mas no fundo é uma biografia do autor que é filho do libanês. Ele fala de esoterismos e de ricas tradições das demais regiões do Oriente Médio. São através de dramáticos acontecimentos que o autor nos põe em contato com cidades lendárias, seres extraterrestres, e com processos espirituais. É relatado também os horrores pelo qual passou no Líbano durante a primeira guerra (1914).
A quem não possa, o livro realmente não se faz interessante, mas nele há algo bem bacana, que dificilmente encontramos nesse gênero busca-espiritual-de-resultados-imediatos (que nos finalmentes acaba sendo de “auto-ajuda”): é que quando o personagem passa pela Senda da Iniciação (espiritual), o seu guia-mestre explica que “sem os mistérios do amor e do sexo não se chega a Deus”. Êba! Que o papa-nazi-XVI não nos ouça.
Outra coisa legal é que o autor se utiliza de poesia da Síria/Líbano; num passeio pelas belas cidades de Beirute e Damasco. O editor diz que o livro “é destinado a distrair, instruir e educar espiritualmente pessoas de todos os níveis e raças.” Porém, contudo e todavia...
Pra quem não sabe do assunto "Bookcrossing", leia o post abaixo.




segunda-feira, 17 de maio de 2010

“LIVRO LIVRE” - BookCrossing


Conheci inúmeros movimentos libertários: de escravos, estudantes, operários, anarquistas, socialistas, cristãos, artistas, ambientalistas, sem-terras, sem-money, sem-vergonhas-na-cara. Organizações de todos gêneros, credos, cores e cheiros. De esquerda e direita e até de ditadores (sim, porque todo caudilho se julga libertador). Mas de “livros” essa foi a primeira vez. Foi em 2008, durante a Virada Cultural daquele ano, que conheci, na Casas das Rosas, o BOOKCROSSING, movimento de libertação de livros que começou no esteites e que agora já se espalhou pelo mundo. Se você encontrar um livro esquecido por aí em que na capa esteja escrito “Não estou perdido... Sou um livro livre”, saiba que ele está ali à procura de um leitor em potencial que o descubra, e não mofando egoisticamente nalguma estante.
A idéia é bem bacana. É o desapego ao objeto livro (no bom sentido), é a concepção e a prática democrática do uso do livro como se fosse numa grande biblioteca mundial. Um idealismo possível. Iniciativa como esta, com toda certeza, já deve ter pipocado em diversos países, mas da forma como é organizada pelo Bookcrossing, para mim, é mais interessante. O livro é colocado em lugares públicos e como cada livro tem um registro no Bookcrossing, espera-se que o possível leitor entre no site e digite esse registro. Na primeira página segue o texto:
"Sou um livro muito especial. Viajo ao redor do mundo em busca de novos leitores. Espero ter encontrado mais um em você. Por favor, vá até http://www.bookcrossing.com.br/ , entre com o número BCID abaixo e deixe uma breve nota. Você descobrirá onde estive, quem me registrou e meu leitores anteriores saberão que estou seguro em suas mãos. Depois ajude-me a realizar um sonho: leia-me e liberte-me!"
A coisa começou em 2001, quando Ron Hornbaker e sua esposa, Kaori, admiravam sites que rastreavam dinheiro e câmeras descartáveis pelo mundo. Eles olharam para própria estante de livros e logo em seguida surgiu a idéia de rastrear livros. Daí fizeram o site com apoio de outros parceiros e rapidamente o projeto rodou o mundo. O BookCrossing está presente em mais de 130 países, com cerca de 800 mil membros.
A partir desta semana “libertarei” um livro em algum local o qual avisarei antecipadamente aqui no blog. Se você quiser saber dos títulos que estão libertados pela sua cidade o site também informa. Se houver interesse pelo movimento e você desejar libertar os livros de sua estante, o site dá todo o suporte, desde etiquetas para colar nos livros até cartazes de divulgação. Há também as “zonas de bookcrossing”, locais onde se pode libertar seu livro ou escolher outro para sua leitura. Em Sampa tem na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37), no bar Central das Artes (R. Apinagés 1081 – Sumaré) e no bar Salommão (Av. Angélica, 2435 – Higienópolis). Outra coisa legal é que não há prazo (nem alguém no nosso pé) para (re)libertarmos os livros do bookcrossing. E não é necessário se cadastrar no site para ser membro do movimento.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

VIRADA CULTURAL 2010


Demorei pra falar aqui dessa nova edição da VIRADA CULTURAL 2010 porque achei a programação um tanto chocha. Não ligo em ter ou não grandes nomes, mas acho sem propósito trazerem atrações internacionais para a Virada, sendo que temos muita gente talentosa buscando espaço. Já fiz alguns trabalhos para a secretaria estadual de cultura e percebi o saco que é se inserir nos projetos culturais públicos. Imaginem o poder de quem organiza esses eventos (e o nível de bajulação e assédio que sofrem), ainda mais este ano que a prefeitura aumentou a verba da Virada para 8 mijones. Outro problema é a descaracterização temática de alguns palcos, como o da Vieira de Carvalho (conhecido como Palco Brega) que mistura Arrigo Barnabé, André Abujamra, Supla, com Sidney Magal, Vanusa e Wanderléa; daria caldo se fosse uma “Jam session”, mas...
No palco da Júlio Prestes tem Living Colour, ABBA e encerra com a cantoria de Elomar, Xangai e Geraldo Azevedo: mistura estranha. Um palco bem bacana é o Cásper Libero (na rua Washington Luis) que traz novos talentos como Juliana Kehl, Tulipa Ruiz, Karina Buhr e Mallu Magalhães. A programação da Boulevar São João começa com o bruxo Hermeto Pascoal, passa pelo sensacional The Temptations, e pelos professores Luiz Tatti, Wisnik e Netrovisk. No palco da São João tem Patrulha do Espaço e uma banda que gosto muito, Velhas Virgens, fazendo tributo a Adoniram Barbosa (nos trens da CPTM, vai rolar, em comemoração ao centenário do compositor paulistano, exposição fotográfica com esquetes teatrais originalmente estreladas por Adoniram na era dos rádio no Brasil – no CEU Jaçanã, Maurício Pereira, Maria Alcina e Wandi Doratiotto também homenageiam o compositor ). A programação mais coerente encontro no palco da República, onde se apresentam Paulo Vanzolini, Nelson Sargento, Jair Rodrigues, Elza Soares, Clube do Balanço, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Dicró e o grande Germano Mathias.
No Pateo do Colégio também tem muita música: por lá tocam Tião Carvalho, as cantoras Nô Stopa e Alzira Espindola; além do bluseiro paulitano da ZL, Edvaldo Santana, na companhia de Swami Jr. Outra coisa bem bacana é a descentralização que rola todo ano, levando boa programação às unidades do CEU nas perifas de Sampa. Marcelo Nova (Camisa de Vênus) toca no CEU Aricanduva. O soul man, Carlos Dafé, tá no CEU – Azul da Cor do Mar. Mallu Magalhães se apresenta no CEU Casa Blanca, e muito mais.
Tem teatro no CCBB e no Sesc Santana, filmes no CCSP e nos Cines Arouche, Belas Artes, Don José, Cinemateca, Sesc e Olido. Na Casa das Rosas também tem boa programação: Tetê Espindola, Filó Machado, Babilaques, dança flamenca e saraus. Sem falar da rede Sesc que traz Nuno Mindelis, Blues Etílicos, Antonio Nóbrega, Arnaldo Antunes, Osvaldinho da Cuica, Quinteto em Preto e Branco, Tatá Aeroplano. Uma programação que recomendo é o sarau Virando Poesia do Dia Para Noite – 24 h no ar (via internê, no www.sescsp.org.br/santoamaroemrede), coordenado por Sérgio Vaz e o pelo pessoal da Cooperifa.
O chato é que no domingo, dia 16, também tem a Feira da Pompéia que este ano comemora os cem anos do bairro.
Pra ver a programação completa da Virada Cultural clique aqui.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

“NÓIS NUM SEMOS TATU”


A partir de hoje lanço campanha nacional: “Vamos Estatizar nosso Escrete Canarinho”, com eleição direta para presidente da CBF e pra técnico da seleção. Porque, sabendo dos critérios de Dunga para a convocação dos 23 jogadores, precisamos conquistar o direito de colocar e de empichar, por meio do voto/referendo/plebiscito/palitinho/dois-ou-um, desde o técnico até o todo poderoso ocupante da presidência da CBF (ou alguém duvida que o segundo brasileiro mais importante seja o senhor Ricardo Teixeira?). Em vários momentos da entrevista coletiva, depois da apresentação dos convocados, para explicar os critérios de escolha ou de exclusão de determinado atleta, Dunga se referiu à suas conversas com Teixeira, a quem ele trata de “o presidente”. Ou seja: o clamor popular pela convocação de Ganso, Neymar (e de Diego Tardelli) não tem peso algum, mas o que ele o “presidente” decidem é o que prevalece. Dunga não tem consciência de sua contradição: ao mesmo tempo em que apela ao “patriotismo” do torcedor brasuca, dizendo “se não gostarem de mim, de uma ou outra escolha, gostem de nosso país, gostem do Brasil, nos incentive”, afirma não acreditar em “clamor” (ele se enrolou todo, tentando explicar que há exploração de marketeiros quando existe consenso popular pela escalação de determinados jogadores). O pior é que a Rede Globo vai atrás dessa patacoada patriótica, como no slogan “Nosso Esporte É Torcer Pelo Brasil”. Se não me engano, foi o pensador inglês Samuel Johnson que disse “O Patriotismo é o Último Refúgio dos Canalhas”. E a maior incoerência é o argumento repetido por Dunga sobre a falta de experiência de Neymar e Ganso em partidas da seleção; ambos “não foram testados suficientemente para serem convocados”. Oras bolas! Quando Dunga foi nomeado pelo “presidente” ele tinha alguma experiência anterior como técnico?
Enfim. Confesso que estou brochado, sem tesão pelo championship mundial ludopédico 2010. Acredito que torcer pelo escrete "do" Dunga (sim, essa escalação é de autoria e de total responsabilidade do treinador e do “presidente”) vai ser de lascar; retranca futebol clube com um no gol e dez recuados, diferentemente do belo futiba apresentado recentemente pelo Santos e pelo Barcelona. Dunga quer jogador "raçudo" e nós queremos "classudos", senão vai ser o mesmo sofrimento de 1994; quando um a zero era goleada (tempos idos da "Era Dunga", lembram?) . Como diz aquele locutor histriônico global, “haja coração!”

terça-feira, 4 de maio de 2010

Um lugar legal em Santos.

Homenageando a talentosa equipe de garotos que trouxe o título do Campeonato Paulista de 2010 ao time santista, deixo aqui algumas fotos que fiz de um local bem bacana que conheci em Santos neste fim de semana. Próximo do centro histórico da cidade há o morro de Monte Serrat, onde em 1927 foi inaugurado o bonde funicular que transportava a elite cafeeira até o alto do morro para apostar no Cassino Monte Serrat, que em seu período de glamour recebeu presidentes, grandes orquestras internacionais e artistas como Carmem Miranda, Francisco Alves e Sílvio Caldas até ser fechado, em 1946, quando o presidente Gaspar Dutra proibiu o jogo no Brasil. Um lugar agradável que ainda conserva as características originais da decoração da época. Atualmente o imenso salão e o terraço são alugados para festas, e no primeiro pavimento funciona uma cafeteria com vista para toda a cidade.

O estranho é que não encontrei quem soubesse, para nos informar, a localização do bonde de Monte Serrat. Pior. Estávamos a menos de duas quadras do local e ainda assim havia quem não sabia da existência do tal ponto turístico. E isso se repetiu noutros lugares dos quais pedíamos informações. Acho que assim como acontece em Sampa, parte da população santista não tem o menor conhecimento dos locais históricos e turísticos de sua cidade. Acredito que a rotina do trabalho não permite ao paulistano e ao santista conhecer suas cidades, lamentavelmente.

Serviço: Monte SerratPraça Correia de Melo, 33. Ida e volta de bonde funicular: R$ 17,00. Funcionamento: segunda a domingo das 8 às 20h, com partida a cada 30min. Te.: (13) 3221 5665 –
www.monteserrat.com.br

(Zequinha Imagens - clique nas fotos para ampliá-las)





Estacionamento do cassino na década de 20 e no domingo passado.

Elite paulistana e santista que frequentava o cassino.

Entrada do cassino e parte da vista da cidade