quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

"Crianças crescem, os brinquedos (não) mudam."

Pensem num garoto que na sua infância não soltava pipas, não rodava pião, não se importava com bolinhas de gude, não corria atrás de balão, não queria saber nem de bicicleta... Pois é! Esse ser aparentemente insociável foi “mi”. Digo “aparentemente”, mesmo, porque na verdade eu não me ligava no que era comum (já era metido a ser diferente). De toda a redondeza eu era o maior consumidor de congas, bambas e kichutes, que se extenuavam em sucessivas pelejas. Passava boi, passava boiada e a vida de Zezinho era só jogar bola; durante horas ficava longe de casa e dona Conceição, minha doce genitora, sabia que a asfaltada rua de trás tinha potente iluminação e boa “vizinhação” pra me deixar lá até altas horas.

De lamentável é meu corpinho de ex-trintão não me permitir mais correr atrás da pelota como antes; a última vez que me atrevi deu taquicardia, a vista até escureceu – também fui querer enfrentar uma molecada em pleno vigor futebolístico; e não adianta virem me importunar como seu não soubesse tratar bem a bola. Nos meus tempos de menino eu até que exibia algumas jogadas de encher os olhos - não tinha medo de entrar em divididas e me empenhava muito dentro de uma quadra (sempre curti mais Futebol de Salão - que hoje chamam de Futsal). Contudo minha “magricetude” congênita antecipou o fim do craque que havia em mim: culpa da molecada mais robusta me quebrava toda vez que eu levava perigo à pequena área.

E é por causa desse tempo que mantenho gosto pelo “esporte bretão*” - apesar de demorar décadas pra saber o que isso quer dizer. Também acompanho com interesse o desenrolar de alguns campeonatos e sou um torcedor incomum: vibro com qualquer ascensão de time pequeno e seco os tradicionais, os grandes. Cultivo paixões por times como “Sport” (de Recife), “América” (do Trajano – ops, do Rio de Janeiro), "Avaí" (de Floripa), "Marília" (de São Paulo), "Vila Nova" (de Minas), "Bangu" (do Rio), "União de Araras" (de SP), "Caxias" (do Rio Grande do Sul), "Itumbiara" ( de Goiânia), "Sampaio Correia" (do Maranhão), entre tantos.

E o que me cansa é saber que o Futebol é ainda “testosteronizado” em máxima potência; ele vive a ilusão de que o mundo masculino tudo lhe dará. Nossas meninas do Futebol deram show de bola por onde passaram; foram vice-campeãs em diversos torneios mundiais - sem me esquecer daquela sensacional final em que sapecaram 5x0 nas americanas, ficando com o ouro do Pan 2007. Nesta semana Marta foi eleita pela terceira vez a melhor do mundo e até agora eu não sei por que cargas d’água a CBF não realiza um campeonato de Futebol feminino decente.

Fiquei sabendo que a nossa seleção feminina é constantemente convidada a participar de competições na Europa e a CBF faz de conta de que não é com ela. Sabem vocês qual será o próximo compromisso de nossa seleção feminina antes da próxima copa de 2011? NENHUM!!! Nem um mísero amistoso contra uma possível seleção de freiras enclausuradas do Iêmen.
Um dia desses deixei meu nome num abaixo-assinado onde belas e aguerridas estudantes de uma universidade caça-níquel pediam a criação de turmas de Futsal feminino. Putz! Isso tudo realmente me brocha.

* Esporte Bretão: a tese mais aceita quanto à origem do Futebol é a de que o esporte foi criado pelos ingleses, e como a Inglaterra faz parte da Grã-Bretanha, o que faz supor que o esporte é “bretão” justamente porque é da Grã-Bretanha. Mas o adjetivo relativo à Grã-Bretanha não é britânico? O Aurélião diz que "bretão" é quem nasceu na Bretanha, na França. Xiii! E agora? Se o esporte é da Grã-Bretanha, como pode ser bretão, se bretão é da Bretanha, região da França?

4 comentários:

Marquinho disse...

Zé, eu só vi você jogar de goleiro, e muito pouco. Quanto a final contra as americanas no Pan aquele foi um dos melhores jogos que já vi, melhores até que as ultimas partidas da seleção masculina.

crisim disse...

Nunca vi o Zé jogar.Quando finalmente vislumbrei a possibilidade de vê-lo em campo, Zé, Valmir, Joãozinho e os caras todos felicíssimos em participar de uma pelada amadora, alguém esqueceu de levar a bola...
Tem problema não, o maior gol de Pelé pouca gente viu, não tem registro algum e teve que ser recriado por computador...
Ele consegue ainda correr atrás do ônibus, há uma esperança!

ZECA disse...

Marquinho, meu caro, quando você me viu jogar eu já estava em outra fase: sacumé, ficar no gol evita contatos mais abruptos.

Cris: existe uma certa sabedoria na natureza (ou na bola); o fato da bola, a protagonista, não ter comparecerecido talves tenha sido por "proteção", o destino nos livrando de sérios entorces, caneladas, entre outros terríveis danos físicos.
Ps: o Joãosinho não fazia parte daquela tentativa.

Emerson disse...

A CBF não sabe organizar nem o futebol masculino que tem muito mais tradição, tradição essa, aliás, que faz com que ele ainda tenha algum campeonato no Brasil. Se dependesse só da CBF o Vôlei já seria o esporte número 1 da torcida há tempos, seguido do Judô e, mais recentemente, pela ginástica olímpica.