terça-feira, 7 de outubro de 2008

Boa Companhia.

Nesta segunda-feira, a tarde estava chuvosa e fria, mas o motivo que me fazia enfrentar essas intempéries dava-se por essencial: meu bichano Léo não tem se alimentando bem, andou perdendo peso - o veterinário recomendou um tipo de medicamento para que não houvesse carência vitamínica em seu metabolismo, só que o tal remédio não se encontra em qualquer farmácia ou em pet-shops; no entanto, um balconista me deu a dica de uma grande pet na avenida Brig. Luiz Antonio onde, “com toda certeza”, eu encontraria a vitamina. Nada feito. Além de não ter o medicamento, os caras da loja nem o conheciam; o jeito é ligar pro veterinário e solicitar outra coisa. Já tava arrependido e puto por ter me deslocado até ali com aquele tempo horroroso (desde quando eu era Office boy, eu abomino ter que enfrentar ônibus e ir à cidade em dias de chuva), mas havia uma livraria no meio do caminho, no meio do caminho havia uma livraria, na qual entrei apenas pra desfazer o meu fastio (mesmo que eu não vá comprar nada, só o fato de entrar numa livraria já aciona em mim um dispositivo anti-estresse); conheço algumas pessoas como eu que andam também com uma listinha livros (de lançamentos ou não) para manuseá-los quando passar por um sebo ou uma livraria. (bueno... cada um com sua frescura!).

Fucei várias estantes e não encontrei um item sequer de minha lista – nada da coleção “Pequenos Craques” da editora Callis (série de livros que retrata a infância de grandes esportistas brasileiros, contando curiosos episódios sobre o caminho de cada um deles até o pódio – os primeiros craques são: Garrincha, Rivellino, Leônidas da Silva, Hortência, Magic Paula e João do Pulo), nem o “Canalha” de Fabrício Carpinejar; muito menos o novo livro do (antipático, para alguns) Marcelo Mirisola, o “Animais em Extinção”. Isso é o que acontece quando papelarias se metem a vender livros; cai a qualidade dos produtos (elas entopem as estantes de auto-ajuda, de esotéricos e outras superficialidades). Mas o aborrecimento (posso dizer “fúria”) voltou quando vi o mais visceral poeta, GLAUCO MATTOSO (na autobiografia, Manual do Podólatra Amador), sozinho, entre picaretas de aclamadas estirpes: Diogo Mainardi (“A Tapas e Pontapés”) e Oscar Niemeyer (olha só o nome do livro do comunista pelego, “Diante do Nada”). Ao lado desse centenário arquiteto estava Maria Izilda de Matos** (com o livro “A Cidade, a Noite e o Cronista") – a Zilda, como é mais conhecida, é professora especialista em história do Brasil do departamento de História da Fefelechi – USP. Atualmente coordena os cursos de pós-graduação, mas já foi diretora da cadeira de História e foi nesse período que caiu a máscara da dita-cuja. Ela, que se dizia militante da causas sociais, defensora dos frascos e comprimidos, se revelou reaça até o último fio de cabelo: logo que tomou posse no cargo acabou com o a venda de cerveja nas lanchonetes e nos Centros Acadêmicos do prédio de Geografia e História, tudo de uma só canetada (certa vez usou força miliciana – entenda-se: os seguranças – pra coibir a venda e o consumo de cerva num C.A., durante uma festa de recepção da calourada), isso sem mencionar outros imbróglios causados pela professora.

Chega! O Clauco não merecia aquilo (é possível ler seus belos sonetos mensalmente na revista Caros Amigos ou no seu website http://glaucomattoso.sites.uol.com.br/index5.html ). Senti-me na obrigação de lhe arranjar boa companhia; parti, então, a procura de poetas de sobrenome iniciado pela consoante “M”, mas foi em vão (isso porque o anta aqui se lembrou de poucos). Nenhuma Cecília Meireles ou então um João Cabral de Melo Neto pra acolhê-lo. Já tava eu xingando o dono daquela papelaria (disfarçada de livraria) quando encontrei, no meio de todo aquele “inutensílio”, a bela Ana Miranda (com seu “Desmundo”) e Alberto Marsicano (e suas “Crônicas Marsicanas”).
Finalmente me dava por satisfeito: achei figuras raras na estante daquela loja pro Glauco; de um lado ele poderia escutar a poética narrativa da história de Oribela (personagem que na adaptação de Alain Fresnot para o cinema comeu todo o pão que o diabo amassou), do outro, quem sabe, ele poderia ouvir a genial Cítara de Marsicano (músico, tradutor de Haikais, de William Blake e primeiro brasileiro mestre em Sitar, como é conhecido esse instrumento na Índia ). Enfim. Voltei pra casa um pouco molhado de chuva e com frio, porém orgulhoso de meu pequeno e singelo ato.

PS: Aqui deixo um soneto fodástico, pulsante e infeccioso de Glauco Mattoso (leia-o em voz alta, mesmo que seja mentalmente)


PARA A CRIAÇÃO DO MUNDO

Nem sei se foi Deus Pai ou foi Deus Filho
quem mais cagou no mundo a merda toda.
Só sei que quem criou quis ver-lhe um brilho
da cor de merda mole em toda a roda.

Com tudo que Ele fez me maravilho:
o Sol, a Lua, a Terra... Me incomoda
apenas o que entrou de afogadilho
quando Ele disse, exausto: "Que se foda!"

Nas plantas, caprichou; nos bichos, quase;
somente avacalhou quando, na fase
final, criou o Macho e deu-lhe a Fêmea...

Do fruto os proibiu provar e, puto
por tê-los pego em flagra, eis que Lhe escuto
um "Puta que os pariu!" como blasfêmia...


**ERRATA: Errei feio. "Maria Izilda de Matos" não é a professara "Zilda" da FFLCH

4 comentários:

Marco Antonio disse...

Zé, tem uma grande papelaria que virou rede - só vende paulo coelho e família Gasparetto.
Adorei o texto e principalmente o soneto virulento do Glauco Matoso.
Abraço.

Wagner disse...

Zé,sabendo de minhas limitações gramaticais, ouso dizer que não entendi o "-lhe" no verso: "Só sei que quem criou quis ver-lhe um brilho". Teria o sentido de: ... quem criou quis nele ver um brilho? Licença poética? Que acha?

ZECA disse...

Wagner: eu acho que é isso, mesmo. Assim como uma ironia: um brilho de cor da merda "nele" mesmo, o que criou refletido (ou inspirado) nele mesmo. Penso eu que é o que mais se aproxima. Que cê acha?

janaína disse...

Tenho uma tia muito legal que disse, há muitos anos, que um livro é a melhor companhia (na verdade, ela disse que ficaria bem numa ilha deserta se pudessem lhe mandar, periodicamente, bons livros.) Na época achei que o gostar de solidão dela estava muito exagerado. Hoje, acho perfeitamente possível ficar algum tempo na companhia delivros, apenas. Não sou uma grande leitora, mas levaria "Viva o Povo Brasileiro" que teimo em não terminar, "Cem anos de Solidão" que já li 2 vezes, "A Rosa do Povo" meu livro de poesias preferido, "O Grande Mentecapto" pra rir novamente das mesmas bobagens. Talvez levasse um livro de cálculo diferencial pra pirar um pouquinho porque ninguém é de ferro.
Quanto ao poema... não gosto muito dessa coisa escatológica rsrs
Gostei da ironia rondando o texto!
Beijos!