sexta-feira, 18 de julho de 2008

Coincidência



“Santa coincidência, Batman!” Sim. Foi pura coincidência, mesmo. Antes de embarcar pra Paris deixei um post aqui informando que ficaria hospedado no Le Quartier Republique Hotel, localizado no charmoso bairro do Marais (que se pronuncia “marré”), a poucos minutos de caminhada da Île de La Cité (o lugar mais central da cidade). No começo do século XIX, logo após a Revolução de 1889, a França ainda passava por um período de escassez. Na época o Marais estava abandonado e por lá habitava muita gente miserável que vinha de regiões da frança (também miseráveis) tentar algo que trouxesse melhores condições. A Bastilha, antiga prisão parisiense (que ficava no Marais), fora destruída pelos insurgentes, deixando o bairro todo esburacado e abandonado (bueno, mas pra qualquer um que estude um pouco da história da França vai saber que o país passou por vários períodos de fome braba, devido às tantas guerras que se envolveu desde o tempo da ocupação romana).

Voltando. A “coincidência” de que me referi é que, nos dias que passeei pelo Marais, cantarolei dezenas de vezes aquela musiquinha infantil que todo brasileiro sabe de cor: “eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré/ eu sou pobre, pobre, pobre de marré de ci”. E para minha surpresa, enquanto lia a excelente biografia de Oswald de Andrade feita pela Maria Augusta Fonseca, descubro que a “musiquinha” deriva, sim, da transposição de uma canção francesa: "je suis pauvre (se pronuncia “puvre”) de Marais de Ici”

(tradução: “eu sou pobre do Marais aqui”) , e assim também repetindo a segunda parte que diz, “eu sou rica, rica = je suis richa, richa (...)”.

E quem afirma tudo isso, não é o Oswald nem a biógrafa; o responsável por essa informação foi o crítico e também modernista Menotti Del Picchia, que pesquisou as reminiscências infantis utilizadas por Oswald em seu livro de ficção OS CONDENADOS.
O certo é que hoje o Marais não tem nada que lembre esses períodos de miséria. Muito pelo contrário: no bairro mora muita celebridade e muito judeu com grana. Lá também tem excelentes bares. E por falar nisso, na rua de nosso hotel encontramos um barzinho onde se servia “caipirinia”.




3 comentários:

angeloc disse...

Putz Zé, a musiquinha "Eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré" inicia o capítulo sobre o bairro do Marais no livro que eu dei de presente pra Cris (GTB - Paris), vide pg. 242. "O ´marré deci` da menina "rica, rica, rica" é a Mairie d´Isy, um suburbio de Paris."

Zeca disse...

É verdade. Eu não prestei atenção. Acontece que eu li partes daquele livro, não segui a ordem já isso era possível.
Pardon, monsieur.

Emerson disse...

Sensacional!