Nesta segunda-feira, a tarde estava chuvosa e fria, mas o motivo que me fazia enfrentar essas intempéries dava-se por essencial: meu bichano
Léo não tem se alimentando bem, andou perdendo peso - o veterinário recomendou um tipo de medicamento para que não houvesse carência vitamínica em seu metabolismo, só que o tal remédio não se encontra em qualquer farmácia ou em
pet-shops; no entanto, um balconista me deu a dica de uma grande
pet na
avenida Brig. Luiz Antonio onde, “com toda certeza”, eu encontraria a vitamina. Nada feito. Além de não ter o medicamento, os caras da loja nem o conheciam; o jeito é ligar pro veterinário e solicitar outra coisa. Já tava arrependido e puto por ter me deslocado até ali com aquele tempo horroroso (desde quando eu era
Office boy, eu abomino ter que enfrentar ônibus e ir à cidade em dias de chuva), mas havia uma livraria no meio do caminho, no meio do caminho havia uma livraria, na qual entrei apenas pra desfazer o meu fastio (mesmo que eu não vá comprar nada, só o fato de entrar numa livraria já aciona em mim um dispositivo anti-estresse); conheço algumas pessoas como eu que andam também com uma listinha livros (de lançamentos ou não) para manuseá-los quando passar por um sebo ou uma livraria. (bueno... cada um com sua frescura!).
Fucei várias estantes e não encontrei um item sequer de minha lista – nada da coleção
“Pequenos Craques” da editora
Callis (série de livros que retrata a infância de grandes esportistas brasileiros, contando curiosos episódios sobre o caminho de cada um deles até o pódio – os primeiros craques são:
Garrincha, Rivellino, Leônidas da Silva, Hortência, Magic Paula e João do Pulo), nem o
“Canalha” de
Fabrício Carpinejar; muito menos o novo livro do (antipático, para alguns)
Marcelo Mirisola, o
“Animais em Extinção”. Isso é o que acontece quando papelarias se metem a vender livros; cai a qualidade dos produtos (elas entopem as estantes de auto-ajuda, de esotéricos e outras superficialidades). Mas o aborrecimento (posso dizer “fúria”) voltou quando vi o mais visceral poeta,
GLAUCO MATTOSO (na autobiografia, Manual do Podólatra Amador), sozinho, entre picaretas de aclamadas estirpes:
Diogo Mainardi (“A Tapas e Pontapés”) e
Oscar Niemeyer (olha só o nome do livro do comunista pelego, “
Diante do Nada”). Ao lado desse centenário arquiteto estava
Maria Izilda de Matos** (com o livro “A
Cidade, a Noite e o Cronista") – a Zilda, como é mais conhecida, é professora especialista em história do Brasil do departamento de História da
Fefelechi – USP. Atualmente coordena os cursos de pós-graduação, mas já foi diretora da cadeira de História e foi nesse período que caiu a máscara da dita-cuja. Ela, que se dizia militante da causas sociais, defensora dos frascos e comprimidos, se revelou
reaça até o último fio de cabelo: logo que tomou posse no cargo acabou com o a venda de cerveja nas lanchonetes e nos
Centros Acadêmicos do prédio de
Geografia e História, tudo de uma só canetada (certa vez usou força miliciana – entenda-se: os seguranças – pra coibir a venda e o consumo de cerva num
C.A., durante uma festa de recepção da calourada), isso sem mencionar outros imbróglios causados pela professora.
Chega! O Clauco não merecia aquilo (é possível ler seus belos sonetos mensalmente na revista Caros Amigos ou no seu website
http://glaucomattoso.sites.uol.com.br/index5.html ). Senti-me na obrigação de lhe arranjar boa companhia; parti, então, a procura de poetas de sobrenome iniciado pela consoante “M”, mas foi em vão (isso porque o anta aqui se lembrou de poucos). Nenhuma
Cecília Meireles ou então um
João Cabral de Melo Neto pra acolhê-lo. Já tava eu xingando o dono daquela papelaria (disfarçada de livraria) quando encontrei, no meio de todo aquele
“inutensílio”, a bela
Ana Miranda (com seu “
Desmundo”) e
Alberto Marsicano (e suas “
Crônicas Marsicanas”).
Finalmente me dava por satisfeito: achei figuras raras na estante daquela loja pro
Glauco; de um lado ele poderia escutar a poética narrativa da história de
Oribela (personagem que na adaptação de
Alain Fresnot para o cinema comeu todo o pão que o diabo amassou), do outro, quem sabe, ele poderia ouvir a genial Cítara de
Marsicano (músico, tradutor de
Haikais, de
William Blake e primeiro brasileiro mestre em
Sitar, como é conhecido esse instrumento na Índia ). Enfim. Voltei pra casa um pouco molhado de chuva e com frio, porém orgulhoso de meu pequeno e singelo ato.
PS: Aqui deixo um soneto fodástico, pulsante e infeccioso de Glauco Mattoso (leia-o em voz alta, mesmo que seja mentalmente)
PARA A CRIAÇÃO DO MUNDO
Nem sei se foi Deus Pai ou foi Deus Filho
quem mais cagou no mundo a merda toda.
Só sei que quem criou quis ver-lhe um brilho
da cor de merda mole em toda a roda.
Com tudo que Ele fez me maravilho:
o Sol, a Lua, a Terra... Me incomoda
apenas o que entrou de afogadilho
quando Ele disse, exausto: "Que se foda!"
Nas plantas, caprichou; nos bichos, quase;
somente avacalhou quando, na fase
final, criou o Macho e deu-lhe a Fêmea...
Do fruto os proibiu provar e, puto
por tê-los pego em flagra, eis que Lhe escuto
um "Puta que os pariu!" como blasfêmia...
**ERRATA: Errei feio. "Maria Izilda de Matos" não é a professara "Zilda" da FFLCH